“Eu estava me estranhando, por que nunca passei tanto tempo tentando decifrar alguém. Meus olhos estavam atentos a cada gesto dela. Até o mais ingênuo movimento dos teus cabelos, eu observava fixamente.
Que garota era aquela? Nunca havia visto alguém com tamanha beleza e leveza ao sorrir. Nunca havia me imaginado ao lado de alguém, antes de vê-la. Em tão pouco tempo, sonhei absurdamente em ter-la como Minha.Ela tinha cara de Renata, mas sorriso de Barbara (Na verdade pouco importa o nome). Parecia também ter quem amar, ou seria só impressão minha? Não tinha cara de quem vive só, cambaleado a procura. Ao contrario, as pessoas que andavam cambaleando a sua procura.
Tinha olhos de quem não viveu nem a metade do que quis ou realizou todos os sonhos que havia sonhado, até aquele momento.Olhos de quem nunca desistiu e atitudes de quem nunca desistiria daquela missão que haviam lhe dado: viver o suficiente para fazer do pouco tempo que tinha, o mais inesquecível.
A pele branca, cansada, indicava seu estado. Tal estado exterior não se comparava ao estado interior. Que grande coração aquela jovem deveria ter. Quem me falou sobre ela, não se enganou em cada palavra meiga.
“Mas que vontade de cuidá-la” pensava comigo. A via com os olhos e a sentia com o coração.
Enfim, pouco durou tanto pensamento e tanta observação, assim que ela me viu, eu tratei de parar de olhá-la.
O que ela pensaria? “Quem é o louco me olhando?” Aquela moça, naquela tarde nunca mais saiu da minha cabeça. “Pobre, que tinha que viver trancada nos meus pensamentos”
À noite, ela saiu do quarto, para andar no corredor e eu estava indo para casa. Meu expediente havia terminado.
- Moço, por gentileza pegue um copo d’gua?
- Claro!
Ela olhou cada movimento meu.
- No começo é assim? Da muita sede?
- Não sei.
- Você não é enfermeiro? Vi-lhe, hoje na porta do meu quarto.
- Desculpe-me se lhe incomodei. Pensei que você não havia me visto.
- Apesar da quantidade de enfermeiros no quarto, você foi o único que eu reparei. Disfarcei bem, não?
- Muito bem – respondi timidamente
- É terminal
Eu arrepiei e ao mesmo tempo senti meu coração espetar como uma agulha espeta um balão Ele foi se desfazendo, bem aqui dentro do peito.
Ela continuou- O bom disso, é que eu não preciso raspar meu cabelo. Nada contra carecas, mas o cabelo me cai bem – ela sorriu, mas eu não conseguia engolir o fato de tal moça, tão bela estar condenada (como se pessoas bonitas não pegassem doença) – Desculpe você estava indo né?
- Tudo bem, quer conversar? – eu queria passar mais alguns minutos com ela
- Não consigo dormir – deixou de ser uma agulha, agora era uma faca me cortando, ao encher seus olhos de lagrima.
- Não chore.
- Eu me acostumei com a doença… Mas não com o medo. Será que depois, vai ficar tudo bem?
- Pra você vai – uma lágrima fugiu da minha muralha e saiu pelos meus olhos.
- Porque “pra mim?”
- Ruim é para quem fica.
- Não tenho ninguém para sentir minha falta.
- Moça, desde a primeira vez que eu lhe vi, eu sinto tua falta – eu disse, levantando seu rosto
- Não se apegue as coisas que não são permanentes – ela falou em tom de exigência
- Você não é uma coisa. Você é uma garota… - ela me interrompeu
- Que está morrendo.Ela caiu no choro, então a abracei, como quem abraça algo que não quer soltar nunca mais. Então um dia, que eu olhasse para trás, poderia dizer que a moça que encheu meus olhos de amor, foi minha por alguns segundos.
- Usando o dinheiro da minha mãe: Vou comprar tudo.. R$ 150,00? Ok, vou levar.
- Usando meu dinheiro: R$2,00? Não faz por R$1,50? Não sei, tô achando caro..
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